terça-feira, 13 de agosto de 2013

MACÁRIO - de Álvares de Azevedo





ÁLVARES DE AZEVEDO


MACÁRIO


Episódio I

Numa estalagem da estrada


Macário (falando para fora): Olá, mulher da venda! Ponham-me na sala uma garrafa de vinho, façam-me a cama e mandem-me ceia: palavra de honra que estou com fome! Deem alguma ponta de charuto ao burro que está suado como um frade bêbado! Sobretudo não esqueçam o vinho!
Uma voz: Há aguardente unicamente, mas boa.
Macário: Aguardente! Pensas que sou algum jornaleiro?... Andar seis léguas e sentir-se com a goela seca. Ó mulher maldita! Aposto que também não tens água?
A mulher: E pura, senhor! Corre ali embaixo uma fonte que é limpa como o vidro e fria como uma noite de geada. (Sai).
Macário: Eis ai o resultado das viagens. Um burro frouxo. uma garrafa vazia. (Tira uma garrafa do bolso.) Conhaque! És um belo companheiro de viagem. És silencioso como um vigário em caminho, mas no silêncio que inspiras, como nas noites de luar, ergue-se às vezes um canto misterioso que enleva! Conhaque! Não te ama quem não te entende! não te amam essas bocas feminis acostumadas ao mel enjoado da vida, que não anseiam prazeres desconhecidos, sensações mais fortes! E eis-te aí vazia, minha garrafa! vazia como mulher bela que morreu! Hei de fazer-te uma nênia.
E não ter nem um gole de vinho! Quando não há o amor, há o vinho; quando não há o vinho, há o fumo; e quando não há amor, nem vinho, nem fumo, há o spleen. O spleen encarnado na sua forma mais lúgubre naquela velha taverneira repassada de aguardente que tresanda!
(Entra a mulher com uma bandeja).
A mulher: Eis aqui a ceia.
Macário: Ceia! Que diabo de comida verde é essa? Será algum feixe de capim? Leva para o burro.
A Mulher: São couves...
Macário: Leva para o burro.
A Mulher: É fritado em toicinho...
Macário: Leva para o burro, com todos os diabos!
(Atira-lhe o prato na cabeça. A mulher sai. Macário come.)
Um desconhecido - (entrando) : Boa-noite, companheiro.
Macário (comendo): Boa-noite
O Desconhecido: Tendes um apetite!
Macário: Entendo-vos. Quereis comer? sentai-vos. Quereis conversar? esperai um pouco.
O Desconhecido: Esperarei. (Senta-se).
Macário (comendo): Parece-me que não é a primeira vez que vos encontro. Quando a noite caía, ao subir da garganta da serra
O Desconhecido: Um vulto com um ponche vermelho e preto roçou a bota por vossa perna. . .
Macário: Tal e qual por sinal que era fria como o focinho de um cão.
O Desconhecido: Era eu.
Macário: Há um lugar em que estende-se um vale cheio de grama. À direita corre uma torrente que corta a estrada pela frente. . Há uma ladeira mal calçada que se perde pelo mato...
O Desconhecido: Aí encontrei-vos outra vez... A propósito, não bebeis ?
Macário: Pois não sabeis? Essa maldita mulher só tem aguardente; e eu que sou capaz de amar a mulher do povo como a filha da aristocracia, não posso beber o vinho do sertanejo...
O Desconhecido (Tira uma garrafa do bolso e derrama vinho no copo de Macário): Ah!
Macário: Vinho! (Bebe). À fé que é vinho de Madeira! À vossa saúde, cavalheiro!
O Desconhecido: À vossa. ( Tocam os copos) .
Macário: Tendes as mãos tão frias!
O Desconhecido: É da chuva. (Sacode o ponche). Vede: estou molhado até os ossos!
Macário: Agora acabei: conversemos ..
O Desconhecido: Vistes-me duas vezes. Eu vos vi ainda outra vez. Era na serra, no alto da serra. A tarde caía, os vapores azulados do horizonte se escureciam. Um vento frio sacudia as folhas da montanha e vós contempláveis a tarde que caía. Além, nesse horizonte, o mar como uma linha azul orlada de escuma e de areia-e no vale, como bando de gaivotas brancas sentadas num paul, a cidade que algumas horas antes tínheis deixado. Daí vossos olhares se recolhiam aos arvoredos que vos rodeavam, ao precipício cheio das flores azuladas e vermelhas das trepadeiras, às torrentes que mugiam no fundo do abismo, e defronte víeis aquela cachoeira imensa que espedaça suas águas amareladas, numa chuva de escuma, nos rochedos negros do seu leito. E olháveis tudo isso com um ar perfeitamente romântico. Sois poeta?
Macário: Enganai-vos. Minha mula estava cansada. Sentei-me ali para descansá-la. Esperei que o fresco da neblina a reforçasse. Nesse tempo divertia-me em atirar pedras no despenhadeiro e contar os saltos que davam.
O Desconhecido: É um divertimento agradável.
Macário: Nem mais nem menos que cuspir num poço, matar moscas, ou olhar para a fumaça de um cachimbo A minha mala (Chega à janela). Ó mulher da casa! olá! o de casa!
Uma voz (de fora): Senhor!
Macário: Desate a mala de meu burro e traga-m'a aqui .
A voz: O burro?
Macário: A mala, burro!
A voz: A mala com o burro?
Macário: Amarra a mala nas tuas costas e amarra o burro na cerca.
A voz: O senhor é o moço que chegou primeiro?
Macário: Sim. Mas vai ver o burro.
A voz: Um moço que parece estudante?
Macário: Sim. Mas anda com a mala.
A voz: Mas como hei-de ir buscar a mala? Quer que vá a pé?
Macário: Esse diabo é doido! Vai a pé, ou monta numa vassoura como tua mãe!
A voz: Descanse, moço. O burro há-de aparecer. Quando madrugar iremos procurar.
Outra voz: Havia de ir pelo caminho do Nhô Quito. Eu conheço o burro…
Macário: E minha mala?
A voz: Não vê? Está chovendo a potes!...
Macário (fecha a janela): Malditos! (Atira com ama cadeira no chão).
O Desconhecido: Que tendes, companheiro?
Macário: Não vedes? O burro fugiu. . .
O Desconhecido: Não será quebrando cadeiras que o chamareis..
Macário: Porém a raiva...
O Desconhecido: Bebei mais um copo de Madeira. (Bebem). Levais de certo alguma preciosidade na mala? (Sorri-se).
Macário: Sim . . .
O Desconhecido: Dinheiro?
Macário: Não, mas...
O Desconhecido: A coleção completa de vossas cartas de namoro, algum poema em borrão, alguma carta de recomendação?
Macário: Nem isso, nem aquilo. . . Levo. ..
O Desconhecido: A mala não pareceu-me muito cheia. Senti alguma coisa sacolejar dentro. Alguma garrafa de vinho?
Macário: Não! não! mil vezes não! Não concebeis, uma perda imensa, irreparável... era o meu cachimbo ..
O Desconhecido: Fumais?
Macário: Perguntai de que serve o tinteiro sem tinta, a viola sem cordas, o: copo sem vinho, a noite sem mulher- não me pergunteis se fumo!
O Desconhecido ( Dá-lhe um cachimbo. ): Eis aí um cachimbo primoroso. É de pura escuma do mar. O tubo é de pau de cereja. O bocal é de âmbar.
Macário: Bofé! Uma Sultana o fumaria! E fumo?
O Desconhecido: É uma invenção nova. Dispensa-o. Acendei-o na vela. (Macário acende).
Macário: E vós?
O Desconhecido: Não vos importeis comigo. (Tira outro cachimbo e fuma)
Macário: Sois um perfeito companheiro de viagem. Vosso nome?
O Desconhecido: Perguntei-vos o vosso?
Macário: O caso é que é preciso que eu pergunte primeiro. Pois eu sou um estudante. Vadio ou estudioso, talentoso ou estúpido, pouco importa. Duas palavras só: amo o fumo e odeio o Direito Romano. Amo as mulheres e odeio o romantismo.
O Desconhecido: Tocai! Sois um digno rapaz. (Apertam a mão).
Macário: Gosto mais de uma garrafa de vinho que de um poema, mais de um beijo que do soneto mais harmonioso. Quanto ao canto dos passarinhas, ao luar sonolento, às noites límpidas, acho isso sumamente insípido. Os passarinhos sabem só uma cantiga. O luar é sempre o mesmo. Esse mundo é monótono a fazer morrer de sono.
O Desconhecido: E a poesia?
Macário: Enquanto era a moeda de oiro que corria só pela mão do rico, ia muito bem. Hoje trocou-se em moeda de cobre; não há mendigo, nem caixeiro de taverna que não tenha esse vintem azinhavrado. Entendeis-me?
O Desconhecido: Entendo. A poesia, de popular tornou-se vulgar e comum. Antigamente faziam-na para o povo; hoje o povo a faz para ninguém .
Macário ( bebe ): Eu vos dizia pois Onde tínhamos ficado?
O Desconhecido: Não sei. Parece-me que falávamos sobre o Papa.
Macário: Não sei: creio que o vosso vinho subiu-me à cabeça. Puah! vosso cachimbo tem sarro que tresanda!
O desconhecido; Sois triste, moço... Palavra que eu desejaria ver essa poesia vossa.
Macário: Por quê?
O Desconhecido: Porque havia ser alegre como Arlequim assistindo a seu enterro...
Macário: Poesias a quê?
O Desconhecido: À luz, ao céu, ao mar. ..
Macário: mar é uma coisa soberanamente insípida. . . O enjoo é tudo quanto há mais prosaico. Sou daqueles de quem fala o corsário de Byron "whose soul would sicken o'er the heaving wave".
O Desconhecido: E enjoais a bordo?
Macário: É a única semelhança que tenho com D. Juan.
O Desconhecido: Modéstia!
Macário: Pergunta à taverneira se apertei-lhe o cotovelo, pisquei-lhe o olho, ou pus-lhe a mão nas tetas
O Desconhecido: Um dragão!
Macário: Uma mulher! Todas elas são assim. As que não são assim por fora o são por dentro. Algumas em falta de cabelos na cabeça os têm no coração. As mulheres são como as espadas, às vezes a bainha é de oiro e de esmalte e a folha é ferrugenta.
O Desconhecido: Falas como um descrido, como um saciado! E contudo ainda tens os beiços de criança! Quantos seios de mulher beijaste além do seio de tua ama de leite? Quantos lábios além dos de tua irmã?
Macário: A vagabunda que dorme nas ruas, a mulher que se vende corpo e alma, porque sua alma é tão desbotada como seu corpo, te digam minhas noites. Talvez muita virgem tenha suspirado por mim! Talvez agora mesmo alguma donzela se ajoelhe na cama e reze por mim!
O Desconhecido: Na verdade és belo. Que idade tens?
Macário: Vinte anos. Mas meu peito tem batido nesses vinte anos tantas vezes como o de um outro homem em quarenta.
O Desconhecido: E amaste muito?
Macário: Sim e não. Sempre e nunca.
O Desconhecido: Fala claro.
Macário: Mais claro que o dia. Se chamas o amor a troca de duas temperaturas, o aperto de dois sexos, a convulsão de dois peitos que arquejam, o beijo de duas bocas que tremem, de duas vidas que se fundem tenho amado muito e sempre! Se chamas o amor o sentimento casto e poro que faz cismar o pensativo, que faz chorar o amante na relva onde passou a beleza, que adivinha o perfume dela na brisa, que pergunta às aves, à manhã, à noite, às harmonias da música, que melodia é mais doce que sua voz, e ao seu coração, que formosura há mais divina que a dela - eu nunca amei. Ainda não achei uma mulher assim. Entre um charuto e uma chávena de café lembro-me às vezes de alguma forma divina, morena, branca, loira, de cabelos castanhos ou negros. Tenho-as visto que fazem empalidecer-me meu peito parece sufocar meus lábios se gelam, minha mão se esfria..
Parece-me então que se aquela mulher que me faz estremecer assim soltasse sua roupa de veludo e me deixasse por os lábios sobre seu seio um momento, eu morreria num desmaio de prazer! Mas depois desta vem outra- mais outra-e o amor se desfaz numa saudade que se desfaz no esquecimento. Como eu te disse, nunca amei.
O Desconhecido: Ter vinte anos e nunca ter amado! E para quando esperas o amor?
Macário: Não sei. Talvez eu ame quando estiver impotente!
O Desconhecido: E o que exigirias para a mulher de teus amores?
Macário: Pouca coisa. Beleza, virgindade, inocência, amor
O desconhecido (irônico): Mais nada?
Macário: Notai que por beleza indico um corpo bem feito, arredondado, setinoso, uma pele macia e rosada, um cabelo de seda-froixa e uns pés mimosos
O Desconhecido: Quanto à virgindade?
Macário: Eu a quereria virgem na alma como no corpo. Quereria que ela nunca tivesse sentido a menor emoção por ninguém. Nem por um primo, nem por um irmão Que Deus a tivesse criado adormecida na alma até ver-me como aquelas princesas encantadas dos contos-que uma fada adormecera por cem anos. Quereria que um anjo a cobrisse sempre com seu véu, e a banhasse todas as noites do seu óleo divino para guardá-la santa! Quereria que ela viesse criança transformar-se em mulher nos meus beijos.
O Desconhecido: Muito bem, mancebo! E esperas essa mulher?
Macário: Quem sabe!
O Desconhecido: E é no lodo da prostituição que hás-de encontrá-la?
Macário: Talvez! É no lodo do oceano que se encontram as pérolas
O Desconhecido: Em mau lugar procuras a virgindade! É mais fácil achar uma pérola na casa de um joalheiro que no meio das areias do fundo do mar.
Macário: Quem sabe!..
O Desconhecido: Duvidas pois?
Macário: Duvido sempre. Descreio às vezes. Parece-me que este mundo é um logro. O amor, a glória, a virgindade, tudo é uma ilusão.
O Desconhecido: Tens razão: a virgindade é uma ilusão! Qual é mais virgem, aquela que é deflorada dormindo, ou a freira que ardente de lágrimas e desejos se revolve no seu catre, rompendo com as mãos sua roupa de morte, lendo algum romance impuro?
Macário: Tens razão: a virgindade da alma pode existir numa prostituta, e não existir numa virgem de corpo.-Há flores sem perfume, e perfume sem flores. Mas eu não sou como os outros. Acho que uma taça vazia pouco vale, mas não beberia o melhor vinho numa xícara de barro.
O Desconhecido: E contudo bebes o amor nos lábios de argila da mulher corrupta!
Macário: O amor? Que te disse que era o amor? É uma fome impura que se sacia. O corpo faminto é como o conde Ugolino na sua torre morderia até num cadáver.
O Desconhecido: Tua comparação é exata. A meretriz é um cadáver.
Macário: Vale-nos ao menos que sobre seu peito não se morre de frio!
O Desconhecido: Admira-me uma coisa. Tens vinte anos: deverias ser puro como um anjo e és devasso como um cônego!
Macário: Não é que eu não voltasse meus sonhos para o céu. A cisterna também abre seus lábios para Deus, e pede-lhe uma água pura e o mais das vezes só tem lodo. Palavra de honra que às vezes quero fazer-me frade.
O Desconhecido: Frade! Para quê?
Macário: É uma loucura. Enche esse copo. (Bebe) Pela Virgem Maria! Tenho sono. Vou dormir.
O Desconhecido: E eu também Boa-noite.
Macário: Ainda uma vez, antes de dormir, o teu nome?
O Desconhecido: Insistes nisso?
Macário: De todo o meu coração. Sou filho de mulher.
O Desconhecido: Aperta minha mão. Quero ver se tremes nesse aperto ouvindo meu nome.
Macário: Juro-te que não, ainda que fosses
O Desconhecido: Aperta minha mão. Até sempre: na vida e na morte!
Macário: Até sempre, na vida e na morte!
O Desconhecido: E o teu nome?
Macário: Macário. Se não fosse enjeitado, dir-te-ia o nome de meu pai e o de minha mãe. Era de certo alguma libertina. Meu pai, pelo que penso, era padre ou fidalgo.
O Desconhecido: Eu sou o diabo. Boa-noite, Macário.
Macário: Boa-noite, Satan. (Deita-se. O desconhecido sai). O diabo! uma boa fortuna! Há dez anos que eu ando para encontrar esse patife! Desta vez agarrei-o pela cauda! A maior desgraça deste mundo é ser Fausto sem Mefistófeles Olá, Satan!


[...]



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sobre autor e obra



referências intertextuais

Lord Byron


O Fausto de Goethe




...

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

As Cismas do Destino - Augusto dos Anjos










AUGUSTO DOS ANJOS


As Cismas do Destino


                         I


Recife, Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino, e tinha medo!

Na austera abóbada alta o fósforo alvo
Das estrelas luzia...O calçamento
Sáxeo, de asfalto rijo, atro e vidrento,
Copiava a polidez de um crânio calvo.

Lembro-me bem. A ponte era comprida,
E a minha sombra enorme enchia a ponte,
Como uma pele de rinoceronte
Estendida por toda a minha vida!

A noite fecundava o ovo dos vícios
Animais. Do carvão da treva imensa
Cala um ar danado de doença
Sobre a cara geral dos edifícios!

Tal uma horda feroz de cães famintos,
Atravessando uma estação deserta,
Uivava dentro do eu, com a boca aberta,
A matilha espantada dos instintos!

Era como se, na alma da cidade,
Profundamente lúbrica e revolta,
Mostrando as carnes, uma besta solta
Soltasse o berro da animalidade.

E aprofundando o raciocínio obscuro,
Eu vi, então, à luz de áureos reflexos,
O trabalho genésico dos sexos,
Fazendo à noite os homens do Futuro.

Livres de microscópios e escalpelos,
Dançavam, parodiando saraus cínicos,
Bilhões de centrossomas apolínicos
Na câmara promíscua do vitellus.

Mas, a irritar-me os globos oculares,
Apregoando e alardeando a cor nojenta,
Fetos magros, ainda na placenta,
Estendiam-me as mãos rudimentares!

Mostravam-me o apriorismo incognoscível
Dessa fatalidade igualitária,
Que fez minha família originária
Do antro daquela fábrica terrível!

A corrente atmosférica mais forte
Zunia. E, na ígnea crosta do Cruzeiro,
Julgava eu ver o fúnebre candieiro
Que há de me alumiar na hora da morte.

Ninguém compreendia o meu soluço,
Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas,
O vento bravo me atirava flechas
E aplicações hiemais de gelo russo.

A vingança dos mundos astronômicos
Enviava à terra extraordinária faca,
Posta em rija adesão de goma laca
Sobre os meus elementos anatômicos.

Ah! Com certeza, Deus me castigava!
Por toda a parte, como um réu confesso,
Havia um juiz que lia o meu processo
E uma forca especial que me esperava!

Mas o vento cessara por instantes
Ou, pelo menos, o ignis sapiens do Orco
Abafava-me o peito arqueado e porco
Num núcleo de substâncias abrasantes.

É bem possível que eu um dia cegue.
No ardor desta letal tórrida zona,
A cor do sangue é a cor que me impressiona
E a que mais neste mundo me persegue!

Essa obsessão cromática me abate.
Não sei por que me vêm sempre à lembrança
O estômago esfaqueado de uma criança
E um pedaço de víscera escarlate.

Quisera qualquer coisa provisória
Que a minha cerebral caverna entrasse,
E até ao fim, cortasse e recortasse
A faculdade aziaga da memória.

Na ascensão barométrica da calma,
Eu bem sabia, ansiado e contrafeito,
Que uma população doente do peito
Tossia sem remédio na minh'alma!

E o cuspo que essa hereditária tosse
Golfava, á guisa de ácido resíduo,
Não era o cuspo só de um indivíduo
Minado pela tísica precoce.

Não! Não era o meu cuspo, com certeza
Era a expectoração pútrida e crassa
Dos brônquios pulmonares de uma raça
Que violou as leis da Natureza!

Era antes uma tosse ubíqua, estranha,
Igual ao ruído de um calhau redondo
Arremessado no apogeu do estrondo,
Pelos fundibulários da montanha!

E a saliva daqueles infelizes
Inchava, em minha boca, de tal arte,
Que eu, para não cuspir por toda a parte,
Ia engolindo, aos poucos, a hemoptísis!

Na alta alucinação de minhas cismas
O microcosmos líquido da gota
Tinha a abundância de uma artéria rota,
Arrebentada pelos aneurismas.

Chegou-me o estado máximo da mágoa!
Duas, três, quatro, cinco, seis e sete
Vezes que eu me furei com um canivete,
A hemoglobina vinha cheia de água!

Cuspo, cujas caudais meus beiços regam,
Sob a forma de mínimas camândulas,
Benditas sejam todas essas glândulas,
Que, quotidianamente, te segregam!

Escarrar de um abismo noutro abismo,
Mandando ao Céu o fumo de um cigarro,
Há mais filosofia neste escarro
Do que em toda a moral do Cristianismo!

Porque, se no orbe oval que os meus pés tocam
Eu não deixasse o meu cuspo carrasco,
Jamais exprimiria o acérrimo asco
Que os canalhas do mundo me provocam!

...


o poema na íntegra em

...

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Augusto dos Anjos

[1884 – 1914]




mais info sobre obra e autor





sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Assim disse Zaratustra - Friedrich Nietzsche








FRIEDRICH NIETZSCHE


Also Sprach Zarathustra


Das Nachtlied
A CANÇÃO NOTURNA


A noite caiu: ressoam agora todas as fontes transbordantes. E também minha alma é uma fonte transbordante.

A noite caiu: agora despertam todas as canções daqueles que ama. E também minha alma é a canção daqueles que amam.
Há algo insaciado, insaciável em mim, e deseja falar. Um desejo de amor, em mim, que fala a própria linguagem do amor.
Eu sou luz: ah, se eu fosse noite! Porém eis a minha solidão: estou cercado de luz.
Ah, se eu fosse sombrio e noturno! Como eu desejaria sugar os seios da luz!

E até vós mesmos, eu abençoaria, pequenos astros cintilantes e vagalumes,
nas alturas! - e seria feliz com as vossas dádivas de luz.

Porém eu vivo em minha própria luz, absorvo em mim mesmo as chamas que saem de mim.
Não conheço a alegria dos que recebem: e muitas vezes tenho sonhado que roubar é melhor do que receber.
Eis a minha pobreza: que minha mão não pára de dar presentes; é esta a minha inveja: que vejo olhos à espera e as noites iluminadas de Desejo.
Ó desgosto de todos os generosos! Ó eclipse de meu sol! Ó desejo de desejar! Ó fome devorante na saciedade!
Eles recebem os meus presentes; porém ainda atingirei as almas deles? Existe um abismo entre o dar e o receber; e também o menor dos abismos deve ser transposto.
Uma fome brota de minha beleza: desejaria ferir aqueles que ilumino; desejaria saquear aqueles que presenteio: pois tenho fome de maldade.
Afastar a mão, quando a outra se lhe estende; hesitar, tal uma cascata, que hesita ao precipitar-se: pois tenho fome de maldade.
Minha riqueza medita tal vingança: tal malícia nasce de minha solidão.
Minha alegria em dar extinguiu-se ao dar, minha virtude cansou-se de si mesma em sua abundância.
Quem presenteia, corre o perigo de perder a vergonha; quem sempre compartilha, de tanto compartilhar, cria calos em suas mãos e coração.
Meus olhos não choram mais diante da vergonha dos suplicantes; minha mão está muito áspera, para sentir o tremor das mãos satisfeitas.
Onde estão as lágrimas de meus olhos e a leveza de meu coração? Ó solidão de todos os generosos! Ó silêncio de todos os doadores de luz!
Muitos sóis gravitam nos espaços vazios: para toda a escuridão eles falam através da luz - comigo, continuam silenciosos.
Oh, essa é a inimizade da luz contra tudo o que é luminoso: sem piedade, ela segue sua órbita.
Injusto com tudo o que é luminoso, no íntimo do coração, frio para com os outros sóis - assim vagueia todo sol.
Tal um temporal, os sóis seguem em suas órbitas: é esse o seu curso. A inexorável vontade eles seguem: é essa a sua frieza.
Oh, somente vós, obscuros, sombrios seres, podeis sugar o calor dos corpos luminosos!
Somente vós podeis beber o leite e o conforto dos úberes de luz!
Ah, o gelo ao redor de mim, minha mão queima-se no gelo! Ah, uma sede em mim, que anseia por vossa sede.
A noite caiu: ai de mim, que preciso ser luz! E sede do que é noturno! E solidão!
A noite caiu: tal uma nascente, rompe de mim o meu desejo - ao impelir-me ao falar.
A noite caiu: as vozes se elevam de todas as fontes transbordantes. E também minha alma é uma fonte transbordante.
A noite caiu: eis agora despertas todas as canções dos que amam. E também a minha alma é uma canção dos que amam.
Assim cantou Zaratustra.


Das Nachtlied
A Canção Noturna



Trad. livre: LdeM


…



NIETZSCHE

ASSIM DISSE ZARATHUSTRA
Von den Dichter
DOS POETAS
 
(trecho)


(...)


Mas aceitemos que já tenha sido dito, seriamente, que os
poetas mentem demais: e com razão – NÓS mentimos demais.

Também pouco sabemos e mal aprendemos; assim,
precisamos mentir.

E quem dentre nós, poetas, não tem alterado o seu vinho ?
Muito veneno se misturou em nossas adegas, muito de
censurável se fez.

E por sabermos tão pouco, gostamos, de todo o coração,
dos pobres de espírito, especialmente se são mulheres jovens.

E assim somos ávidos até das coisas que as velhas, à noite,
contam uma às outras. Chamamos a isso, em nós, o eterno
feminino.

E, como se houvesse um acesso especial e secreto ao saber,
Inacessível aos que aprendem algo: acreditamos no povo e
na sua ‘sabedoria’.

Mas nisso acreditam os poetas: que aquele que, deitado
na grama ou em solitária colina, aplica o ouvido, aprende um
pouco das coisas que há entre o céu e a terra.

E, quando se tomam de ternura, os poetas sempre julgam
que a natureza se apaixonou por eles –

E que se insinua em seus ouvidos; com segredos e amados
elogios dos quais, orgulham-se e vangloriam-se diante de todos
os mortais!

Ai de nós, há tantas coisas entre o céu e a terra com que
somente sonharam os poetas !

E principalmente acima do Céu: pois todos os Deuses são
metáforas e artimanhas de Poetas!

Em verdade, algo nos guia para o alto – precisamente, para
o reino das nuvens: nelas pousamos os nossos trajes em cores
e, então, chamamos-lhes deuses e acima-dos-homens.

E deveras, todos são leves para tal sede – esses deuses e
acima-dos-homens !

Coitado de mim, estou cansado de todos esses insuficientes,
em pretenso Acontecimento. Coitado de mim, como estou
cansado dos poetas !

(...)


Assim disse Zarathustra.


Trad. livre:
LdeM



Friedrich Nietzsche, filólogo, pensador e Poeta alemão
(15 de outubro de 1844 - 25 de agosto de 1900)


Also sprach Zarathustra


para ler & ouvir


http://www.gutenberg.org/cache/epub/7205/pg7205.html

sobre o pensamento de Nietzsche



…


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

O ATENEU - Raul Pompeia






RAUL POMPEIA



O ATENEU


Capítulo 1


"Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta." Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regime do amor doméstico, diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam.

Eufemismo, os felizes tempos, eufemismo apenas, igual aos outros que nos alimentam, a saudade dos dias que correram como melhores. Bem considerando, a atualidade é a mesma em todas as datas. Feita a compensação dos desejos que variam, das aspirações que se transformam, alentadas perpetuamente do mesmo ardor, sobre a mesma base fantástica de esperanças, a atualidade é uma. Sob a coloração cambiante das horas, um pouco de ouro mais pela manhã, um pouco mais de púrpura ao crepúsculo — a paisagem é a mesma de cada lado beirando a estrada da vida.

Eu tinha onze anos.

Freqüentara como externo, durante alguns meses, uma escola familiar do Caminho Novo, onde algumas senhoras inglesas, sob a direção do pai, distribuíam educação à infância como melhor lhes parecia. Entrava às nove horas, timidamente, ignorando as lições com a maior regularidade, e bocejava até às duas, torcendo-me de insipidez sobre os carcomidos bancos que o colégio comprara, de pinho e usados, lustrosos do contato da malandragem de não sei quantas gerações de pequenos. Ao meio-dia, davam-nos pão com manteiga. Esta recordação gulosa é o que mais pronunciadamente me ficou dos meses de externato; com a lembrança de alguns companheiros — um que gostava de fazer rir à aula, espécie interessante de mono louro, arrepiado, vivendo a morder, nas costas da mão esquerda, uma protuberância calosa que tinha; outro adamado, elegante, sempre retirado, que vinha à escola de branco, engomadinho e radioso, fechada a blusa em diagonal do ombro à cinta por botões de madrepérola. Mais ainda: a primeira vez que ouvi certa injúria crespa, um palavrão cercado de terror no estabelecimento, que os partistas denunciavam às mestras por duas iniciais como em monograma.

Lecionou-me depois um professor em domicílio.

Apesar deste ensaio da vida escolar a que me sujeitou a família, antes da verdadeira provação, eu estava perfeitamente virgem para as sensações novas da nova fase. O internato! Destacada do conchego placentário da dieta caseira, vinha próximo o momento de se definir a minha individualidade. Amarguei por antecipação o adeus às primeiras alegrias; olhei triste os meus brinquedos, antigos já! os meus queridos pelotões de chumbo! espécie de museu militar de todas as fardas, de todas as bandeiras, escolhida amostra da força dos estados, em proporções de microscópio, que eu fazia formar a combate como uma ameaça tenebrosa ao equilíbrio do mundo; que eu fazia guerrear em desordenado aperto, — massa tempestuosa das antipatias geográficas, encontro definitivo e ebulição dos seculares ódios de fronteira e de raça, que eu pacificava por fim, com uma facilidade de Providência Divina, intervindo sabiamente, resolvendo as pendências pela concórdia promíscua das caixas de pau. Força era deixar à ferrugem do abandono o elegante vapor da linha circular do lago, no jardim, onde talvez não mais tornasse a perturbar com a palpitação das rodas a sonolência morosa dos peixinhos rubros, dourados, argentados, pensativos à sombra dos tinhorões, na transparência adamantina da água...

Mas um movimento animou-me, primeiro estímulo sério da vaidade: distanciava-me da comunhão da família, como um homem! ia por minha conta empenhar a luta dos merecimentos; e a confiança nas próprias forças sobrava. Quando me disseram que estava a escolha feita da casa de educação que me devia receber, a notícia veio achar-me em armas para a conquista audaciosa do desconhecido.

Um dia, meu pai tomou-me pela mão, minha mãe beijou-me a testa, molhando-me de lágrimas os cabelos e eu parti.

Duas vezes fora visitar o Ateneu antes da minha instalação.

Ateneu era o grande colégio da época. Afamado por um sistema de nutrido reclame, mantido por um diretor que de tempos a tempos reformava o estabelecimento, pintando-o jeitosamente de novidade, como os negociantes que liquidam para recomeçar com artigos de última remessa; o Ateneu desde muito tinha consolidado crédito na preferência dos pais, sem levar em conta a simpatia da meninada, a cercar de aclamações o bombo vistoso dos anúncios.

O Dr. Aristarco Argolo de Ramos, da conhecida família do Visconde de Ramos, do Norte, enchia o império com o seu renome de pedagogo. Eram boletins de propaganda pelas províncias, conferências em diversos pontos da cidade, a pedidos, à substância, atochando a imprensa dos lugarejos, caixões, sobretudo, de livros elementares, fabricados às pressas com o ofegante e esbaforido concurso de professores prudentemente anônimos, caixões e mais caixões de volumes cartonados em Leipzig, inundando as escolas públicas de toda a parte com a sua invasão de capas azuis, róseas, amarelas, em que o nome de Aristarco, inteiro e sonoro, oferecia-se ao pasmo venerador dos esfaimados de alfabeto dos confins da pátria. Os lugares que os não procuravam eram um belo dia surpreendidos pela enchente, gratuita, espontânea, irresistível! E não havia senão aceitar a farinha daquela marca para o pão do espírito. E engordavam as letras, à força, daquele pão. Um benemérito. Não admira que em dias de gala, íntima ou nacional, festas do colégio ou recepção da coroa, o largo peito do grande educador desaparecesse sob constelações de pedraria, opulentando a nobreza de todos os honoríficos berloques.

Nas ocasiões de aparato é que se podia tomar o pulso ao homem. Não só as condecorações gritavam-lhe do peito como uma couraça de grilos: Ateneu! Ateneu! Aristarco, todo era um anúncio. Os gestos, calmos, soberanos, eram de um rei — o autocrata excelso dos silabários; a pausa hierática do andar deixava sentir o esforço, a cada passo, que ele fazia para levar adiante, de empurrão, o progresso do ensino publico; o olhar fulgurante, sob a crispação áspera dos supercílios de monstro japonês, penetrando de luz as almas circunstantes — era a educação da inteligência; o queixo, severamente escanhoado, de orelha a orelha, lembrava a lisura das consciências limpas — era a educação moral. A própria estatura, na imobilidade do gesto, na mudez do vulto, a simples estatura dizia dele: aqui está um grande homem... não veem os cavados de Golias?!... Retorça-se sobre tudo isto um par de bigodes, volutas maciças de fios alvos, torneadas a capricho, cobrindo os lábios fecho de prata sobre o silêncio de ouro, que tão belamente impunha como o retraimento fecundo do seu espírito, — teremos esboçado, moralmente, materialmente, o perfil do ilustre diretor. Em suma, um personagem que, ao primeiro exame, produzia-nos a impressão de um enfermo, desta enfermidade atroz e estranha: a obsessão da própria estátua. Como tardasse a estátua, Aristarco interinamente satisfazia-se com a afluência dos estudantes ricos para o seu instituto. De fato, os educandos do Ateneu significavam a fina flor da mocidade brasileira.

A irradiação da réclame alongava de tal modo os tentáculos através do país, que não havia família, de dinheiro, enriquecida pela setentrional borracha ou pela charqueada do sul, que não reputasse um compromisso de honra com a posteridade doméstica mandar dentre seus jovens, um, dois, três representantes abeberar-se à fonte espiritual do Ateneu.

Fiados nesta seleção apuradora, que é comum o erro sensato de julgar melhores famílias as mais ricas, sucedia que muitas, indiferentes mesmo e sorrindo do estardalhaço da fama, lá mandavam os filhos. Assim entrei eu.

A primeira vez que vi o estabelecimento, foi por uma festa de encerramento de trabalhos.


[...]



a obra O Ateneu na Wikisource


Raul Pompeia [1863-1895]
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quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Inferno de Wall Street - Sousândrade






SOUSÂNDRADE


Inferno de Wall Street


[trechos]


(in: O Guesa Errante, 1885)


1 ( O Guesa, tendo atravessado as Antilhas, crê-se livre dos Xeques e penetra em NEW-YORK-STOCK-EXCHANGE; a Voz dos desertos:)

                                         — Orfeu, Dante, AEneas, ao inferno
                                                Desceram; o Inca há de subir...
                                                       = Ogni sp’ranza lasciate,
                                                                   Che entrate.
..
                                               Swedenborg, há mundo porvir?


5 (NORRIS, Attorney; CODEZO, inventor; YOUNG, Esq., manager; ATKINSON, agent; ARMSTRONG, agent; RODHES,agènt; P. OFFMAN & VOLDO, agents; algazarra, miragem; ao meio, o GUESA:)

                                      — Dois! Três! Cinco mil! Se jogardes,
                                                 Senhor, tereis cinco milhões!
                                                  = Ganhou! Ha! Haa! Haaa!
                                                             — Hurrah! Ah!..
                                                — Sumiram... seriam ladrões?..



28 (OSCAR-BARÃO em domingo atravessando a TRINDADE, assestando
o binoclo, resmirando, resmungando de tableaux vivants,
cortejando: o povo leva-o a trambolhões para fora da igreja:)

-Cobra! Cobra! (What só big a noise?!...)
Era o meu relógio … perdão! ..
São pulgas em Bod ….
Me acode!! …
=God? Cod! Sir, we mob; you só dam!



44 (Salvados passageiros desembarcando do ATLÂNTICO; HERALD
deslealmente desafinando a imperial 'ouverture':)

-Agora o Brasil é república;
O Trono no Hevilius caiu...
But we picked it up!
-Em farrapo
'Bandeira Estrelada' se viu.


49 (Um rei yankee desembarca entre os imigrantes nas BATERIAS,
bebe águas republicanas na fonte de BOWLINGREEN e
desaparece; o povo saúda os carros de CESARINO
e ANTONIO pelo de JULIUS CAESAR:)

-Off! Off! Para São Francisco off,
Sem primeiro a Grant saudar!
Só um spokesman
Disse amen …
Que a Deus deve e não a Caesár.


51 (Detectives furfurando em MAIN-BUILDING; telegrama
submarino:)

-Oh! Cá está 'um Pedro d'Alcântara!
O Imperador stá no Brasil.'
-Não está! Cristova
É a nova,
De lá vinda em Sete de Abril !


73 (Fletcher historiando com chaves de São Pedro e pedras de São Paulo:)

-Brasil é braseiro de rosas;
A União, estados de amor:
Floral... sub espinhos
Daninhos;
Espinhal... sub flor e mais flor.


88 (Católicos, temendo a glória da bancarrota, fecham as
portas aos beggars:)

-Se não pagam cash 'i não entram!
Em latim Missa, o Papa e os Céus!
Qual confessionários! …
Frascários
Só queimados dão o que é de Deus!


92 (Maus-pecadores bons-apóstolos, iluminados às crenças de
remissão e ressurreição dos mortos, vendo JERRY Mc
CAULAY e revendo FROTHINGHAM no 'Christ would
not suit our times':)

-Peccavi diz um, e transforma
Pagodes em templo cristão;
Num templo o outro : cruz
Com Jesus!
'Cristianismo é superstição!'


96 (Fogueiros da fornalha reduzindo o pecado original a fórmulas
algébricas e à 'Nova Fé' ('moral rápido trânsito') o
'IN GOD WE TRUST' dos cinco cents:)

-Indústria, ouro, prática vida,
Go ahead! Oh, qual coração! …
A este ar, vai vital
A espiral,
Brisa ou flato ou Bull-furação!


106 (Procissão internacional, povo de Israel, Orangianos, Fenianos, Budas,
Mormons, Comunistas, Niilistas, Farricocos, Railroad-Strikers,All-brokers, All-jobbers, All-saints, All-devils, lanternas, música, sensação; Reporters, passa em LONDRES o
assassino da RAINHA e em PARIS 'Lot' o fugitivo de SODOMA:)

                                                     No Espírito-Santo d'escravos
                                                        Há somente um Imperador
                                                              No dos livres, verso
                                                                        Reverso
                                                           É tudo coroado Senhor!


128 (REV. BEECHER, vendo subscrição antes 'gladdening the sufferers'
e sensação após 'saddening the glad,' não crê mais na
palavra, 'recomenda sabão à congregação' e monta
em 'seu bicycle':)

-Some stain is in that new business
Que pear-soap não pode lavar!
Washerwomen 'nodoam'
E entoam:
'Herald-Flood-Fund,' a ensaboar! …


145 (HERALD advogando a causa chim-comercial:)

-In-God-we-trust 'not worth its price,
A great swindle is silver dollar'!
Se em Deus nós cremos,
Descremos:
Amor pagado há mor pagar ….


[…]


Joaquim der Sousa Andrade (1833-1902)


na íntegra [pdf] em


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terça-feira, 6 de agosto de 2013

PROMETHEUS - J W von Goethe







J W von GOETHE


PROMETHEUS


1774



Encobre o teu céu, ó Zeus,
Com vapores de nuvens,
E, qual menino que decepa
A flor dos cardos,
Exercita-te em robles e cristas de montes;
Mas a minha Terra
Hás-de-ma deixar,
E a minha cabana, que não construíste,
E o meu lar,
Cujo braseiro
Me invejas.

Nada mais pobre conheço
Sob o sol do que vós, ó Deuses!
Mesquinhamente nutris
De tributos de sacrifícios
E hálitos de preces
A vossa majestade;
E morreríeis de fome, se não fossem
Crianças e mendigos
Loucos cheios de esperança.

Quando era menino e não sabia
Pra onde havia de virar-me,
Voltava os olhos desgarrados
Para o sol, como se lá houvesse
Ouvido pra o meu queixume,
Coração como o meu
Que se compadecesse da minha angústia.

Quem me ajudou
Contra a insolência dos Titãs?
Quem me livrou da morte,
Da escravidão?
Pois não foste tu que tudo acabaste,
Meu coração em fogo sagrado?
E jovem e bom — enganado —
Ardias ao Deus que lá no céu dormia
Tuas graças de salvação?!

Eu venerar-te? E por quê?
Suavizaste tu jamais as dores
Do oprimido?
Enxugaste jamais as lágrimas
Do angustiado?
Pois não me forjaram Homem
O Tempo todo-poderoso
E o Destino eterno,
Meus senhores e teus?

Pensavas tu talvez
Que eu havia de odiar a Vida
E fugir para os desertos,
Lá porque nem todos
Os sonhos em flor frutificaram?

Pois aqui estou! Formo Homens
À minha imagem,
Uma estirpe que a mim se assemelhe:
Para sofrer, para chorar,
Para gozar e se alegrar,
E pra não te respeitar,
Como eu!



Trad. Paulo Quintela




Prometheus


Bedecke deinen Himmel, Zeus,
Mit Wolkendunst
Und übe, dem Knaben gleich,
Der Disteln köpft,
An Eichen dich und Bergeshöhn:
Musst mir meine Erde
Doch lassen stehn
Und meine Hütte, die du nicht gebaut,
Und meinen Herd,
Um dessen Glut
Du mich beneidest.


Ich kenne nichts Ärmeres
Unter der Sonn ais euch, Götter!
Ihr nähret kümmerlich
Von Opfersteuern
Und Gebetshauch
Eure Majestät
Und darbtet, wären
Nicht Kinder und Bettler
Hoffnungsvolle Toren.


Da ich ein Kind war,
Nicht wusste, wo aus noch ein,
Kehrt ich mein verirrtes
Auge Zur Sonne, ais wenn drüber wär
Ein Ohr, zu hören meine Klage,
Ein Herz wie meins,
Sich des Bedrängten zu erbarmen.


Wer half mir
Wider der Titanen Übermut?
Wer rettete vom Tode mich,
Von Sklaverei?
Hast du nicht alies selbst vollendet,
Heilig glühend Herz?
Und glühtest, jung und gut,
Betrogen, Rettungsdank
Dem Schlafenden da droben? .

Ich dich ehren? Wofür?
Hast du die Schmerzen gelindert
Je des Beladenen?
Hast du die Tränen gestillet
Je des Geängsteten?
Hat nicht mich zuni Manne geschmiedet
Die allmächtige Zeit
Und das ewige Schicksal,
Meine Herrn und deine?


Wähntest du etwa,
Ich sollte das Leben hasse,
In Wüsten fliehen,
Weil nicht alie Blütenträume reiften?


Hier sitz ich, forme Menschen
Nach meinem Bilde,
Ein Geschlecht, das mir gleich sei:
Zu leiden, zu weinen,
Zu geniessen und zu freuen sich,
Und dein nicht zu achten,
Wie ich!




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segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O Sentimento dum Ocidental - Cesário Verde





CESÁRIO VERDE



O SENTIMENTO DUM OCIDENTAL


I

Ave-marias


Nas nossas ruas, ao noitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás estravassado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, no mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crônicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se pos arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!



II

Noite fechada


Toca-se às grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,
Bem raramente encerra uma mulher de "dom"!

E eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes;
À vista das prisões, da velha Sé, das Cruzes,
Chora-me o coração que se enche e que se abisma.

A espaços, iluminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.

Duas igrejas, num saudoso largo,
Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:
Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela História eu me aventuro e alargo.

Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as construções retas, iguais, crescidas,
Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas,
E os sinos dum tanger monástico e devoto.

Mas, num recinto público e vulgar,
Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras,
Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras,
Um épico doutrora ascende, num pilar!

E eu sonho o Cólera, imagino a Febre,
Nesta acumulação de corpos enfezados;
Sombrios e espectrais recolhem os soldados;
Inflama-se um palácio em face de um casebre.

Partem patrulhas de cavalaria
Dos arcos dos quartéis que foram já conventos:
Idade Média! A pé, outras, a passos lentos,
Derramam-se por toda a capital, que esfria.

Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Ao lampiões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir às montras dos ourives.

E mais: as costureiras, as floristas
Descem dos magasins, causam-me sobressaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
E muitas delas são comparsas ou coristas.
E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados:
Entro na brasserie; às mesas de emigrados,
Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.



III

Ao gás


E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arrepia os ombros quase nus.

Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

Num cuteleiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!

Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

E aquela velha, de bandós! Por vezes,
A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, as duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.

Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós-de-arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros,como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tomam-se mausoléus as armações fulgentes.

"Dó da miséria!... Compaixão de mim!..."
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me sempre esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim?



IV

Horas mortas


O teto fundo de oxigênio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-se a quimera azul de transmigrar.

Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.

Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

Ó nossos filhos! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.

Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nômadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!

Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.

E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.

E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, os imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!



publicado em O Livro de Cesário Verde [1887]






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